A CHEGADA (CRÍTICA)



A ciência e o esforço individual como solução para a intolerância política é a reflexão central do filme "A Chegada" de Denis Villenneuve.

Hollywood já produziu vários filmes sobre chegada de extraterrestres, seja como uma ameaça ao planeta ou como seres pacíficos, destacando os avanços da tecnologia e da ciência. Até aí nenhuma novidade. Entretanto, o interessante no filme “A chegada” de Denis Vilenneuve é que o roteiro, baseado no conto Story of Your Life, de Ted Chiang, destaca a linguagem como o fator decisivo para um movimento de entendimento do outro, mostrando que a falta de comunicação pode definir a diferença entre a paz e a guerra no mundo.

A história começa com as recordações da Dra. Louise Banks (Amy Adams), que perde a filha adolescente para uma forma rara de câncer. Lingüísta renomada, professora na Universidade de Berkeley (EUA), Louise começa a narrar os acontecimentos que se seguiram a partir da chegada desses seres alienígenas.

Doze naves extraterrestres, em forma de concha, chegam misteriosamente e se espalham por todos os continentes. A tentativa de comunicação provoca o surgimento de várias equipes de cientistas ao redor do mundo. Contudo, o excesso de controle das informações pelos governos, impedindo a livre cooperação entre os cientistas, dificulta o avanço da comunicação com os alienígenas, aumentando a tensão belicosa. Em alerta, países como China, Rússia, França e Coreia, além do próprio EUA, preparam-se para uma guerra mundial iminente.

Procurada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) da Inteligência Militar do governo norte-americano, a Dra. Banks (Amy Adams) vai liderar um grupo de lingüistas e se juntar ao físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), e sua equipe, para tentar decifrar a mensagem dos alienígenas e descobrir qual o propósito deles estarem ali. Várias tentativas são feitas, sem sucesso, numa corrida contra o tempo. Todavia, somente quando Louise perde o medo e tenta se aproximar fisicamente dos alienígenas, é que o processo comunicativo realmente começa a acontecer. Sem entender a linguagem oral alienígena, composta de sons gulturais, Louise parte para a simbologia visual, através de signos lingüísticos, apresentando seus significantes e significados, na construção de mensagens simples, na tentativa de uma relação comunicacional com os seres alienígenas para compor fragmentos de um discurso extraterrestre.

Em cada novo encontro, Louise vai descobrindo que essa linguagem é construída numa ordem não linear, ou seja, eles sabem o fim da frase enquanto escrevem o começo, como num palíndromo. O que reflete o modo como eles entendem o tempo e a sua visão de mundo. Não há passado e nem futuro, mas um presente contínuo, onde a ordem temporal é totalmente entrelaçada, alinear. À medida que Louise vai aprendendo essa nova linguagem, vai sonhando com ela e tendo visões do passado e do futuro, remetendo-a também ao processo de aprendizado da língua na infância. Daí a escolha narrativa fílmica, de sucessivos lapsos temporais, de flashbacks e flashfowards, para transpor visualmente o processo mental que Louise está vivendo, das sinapses cerebrais que estão sendo desenvolvidas, revivendo momentos com sua filha Hannah, conectando a personagem com o modo de pensar alienígena.

A premissa lingüística do filme é baseada na hipótese de Sapir-Whorf, de que a língua que falamos determina o modo como enxergamos o mundo, possibilitando que ao aprender um idioma possamos pensar e até sonhar com ele, interferindo em nosso modo de pensar.  O processo comunicativo, entretanto, vai além da linguagem falada e escrita, mas se utiliza de outros padrões de comunicação não-verbal, como a mímica, os gestos e até telepatia. É nesse contexto que o trabalho dos personagens Louise e Ian se desenvolve, utilizando as ciências da lingüística e da matemática como ferramenta de conhecimento para poder interpretar a mensagem dos seres alienígenas, ainda que correndo os riscos de ruídos, ou seja, falhas no entendimento desse processo comunicacional.

O longa mostra os EUA como uma nação belicosa, porém um pouco mais ponderada que as demais, na figura paterna do coronel Weber (Forest Whitaker) e do agente Halpern (Michael Stuhlbarg). Talvez um dos erros do filme, já que a imagem da intolerância construída recai principalmente sobre países historicamente socialistas como Rússia, China e Coreia do Norte. A solução, contudo, está no esforço de Louise, a única pessoa capaz de impedir a deflagração de uma tragédia nuclear. Ideologicamente, nada mais coerente com a premissa do individualismo capitalista. Numa análise mais ampla, poderíamos questionar quem realmente é o alienígena na história, como uma metáfora do “outro”, aquele indivíduo que pensa de um modo diferente de nós, que nos é estranho, politicamente falando, e que muitas vezes consideramos como um inimigo.

O filme é um olhar sobre a intolerância política, a importância da ciência e da comunicação nos processos de paz, além de ser uma visão do homem como parte de uma engrenagem maior, universal, numa perspectiva cíclica do tempo, em que vida e morte, início e fim se confundem. O final é surpreeendente.


Avaliação do filme: Muito Bom.

Elisabete Estumano Freire.

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